BROTERO 39

27/05/2026 | Notícia

O Brotero 39 Bar Ateliê não tenta suavizar a cidade. Ele encara São Paulo de frente. Implantado na Barra Funda, ao lado da linha férrea da CPTM, o edifício assume ruído, fluxo e infraestrutura pesada como matéria de projeto. A resposta surge em forma de clareza estrutural, apoiada em uma solução mista onde o sistema em aço assume papel dominante, atua como linguagem e organiza a relação entre cidade, uso e espaço.

Essa estratégia se consolida em uma hierarquia construtiva precisa, na qual cada material exerce uma função específica. A alvenaria em bloco de concreto aparente ancora o edifício no chão, absorvendo peso, impacto e funções de apoio, concentrando os elementos de serviço e contenção. O sistema metálico, predominante na leitura do conjunto, opera como elemento emancipador do espaço, liberando grandes vãos, ampliando a transparência e estabelecendo um diálogo direto com o entorno urbano.

Como define o arquiteto Alexandre Liba, do escritório Liba Arquitetura, “a leveza da estrutura em aço foi escolhida para imprimir transparência e suavidade à fachada, contrapondo-se à infraestrutura pesada da linha férrea”. Essa afirmação sintetiza o eixo do projeto: o aço atua como mediador urbano, equilibrando a intensidade do contexto com abertura, legibilidade e presença arquitetônica.

A organização espacial do conjunto decorre dessa lógica construtiva. “A estrutura metálica se expressa como um elemento livre e ordenador, enquanto a alvenaria resolve as áreas de serviço de forma sólida e integrada”, afirma Liba.

Terrenos em “L” costumam gerar edifícios fragmentados. No Brotero 39, essa condição é revertida por uma estratégia direta: dois volumes principais, Bar e Galeria/Ateliê, intercalados por três quintais. “Eles funcionam como zonas de respiro e transição, organizando a circulação de forma fluida e compreensível”, diz Liba.

A estrutura metálica pré-fabricada garante precisão a essa ocupação, permitindo que transparência e translucidez alternem-se conforme o contexto urbano. A técnica construtiva deixa de ser suporte oculto e passa a atuar como sistema de leitura do programa.

O conjunto se organiza a partir de dois volumes com presenças distintas. O Ateliê e a Galeria assumem transparência, integrando-se aos quintais por meio de grandes planos de vidro; enquanto o Bar, voltado para a esquina, se apresenta como caixa de luz. “O uso de telhas translúcidas permite que o edifício filtre a luz durante o dia e se ilumine como uma lanterna urbana à noite”, observa o arquiteto.

Ambos compartilham a mesma lógica estrutural em aço; o que muda é a forma como ela se manifesta. Transparência plena em um caso, envoltória translúcida no outro. A construção permanece unitária, enquanto a experiência espacial se transforma.

Construção legível como ética urbana

A opção por manter a estrutura aparente estabelece uma relação direta entre edifício e cidade. Perfis metálicos, blocos de concreto, lajes steel deck e telhas sanduíche permanecem visíveis, tornando legível o processo construtivo e eliminando camadas intermediárias de acabamento. Como sintetiza Liba, “a estética do Brotero 39 surge da própria técnica construtiva”.

Ao explicitar como o edifício se sustenta e se organiza, a arquitetura se torna compreensível no uso cotidiano. Essa legibilidade construtiva aproxima quem ocupa, quem passa e quem observa, permitindo que o bar seja apropriado como parte ativa da vida no bairro.

Nesse contexto, as seis portas metálicas de enrolar transformam a fachada do Brotero 39 em um dispositivo dinâmico. Integradas aos pórticos metálicos, elas permitem que o conjunto se abra completamente para a calçada. “Quando abertas, eliminam barreiras físicas e integram o bar à rua”, explica Liba.

Em um entorno marcado por ruído constante, o projeto adota estratégias passivas mediadas pela estrutura. A disposição dos volumes e dos quintais garante ventilação cruzada, enquanto o pé-direito elevado e as aberturas zenitais ativam o efeito chaminé. Como descreve o arquiteto, “essas estratégias funcionam como barreiras ambientais suaves, filtrando ruído e fluxo sem romper a presença urbana”.

Essa mesma lógica espacial, viabilizada pela estrutura metálica e por seus grandes vãos livres, permite que a construção absorva usos mutáveis ao longo do tempo. Bar, galeria, ateliê e eventos convivem em um sistema contínuo que se expande para os quintais. “A área não construída deixa de ser recuo e passa a ser extensão programática”, destaca Liba.

O Brotero 39 demonstra que a lógica industrial, quando aplicada com precisão, produz efeitos urbanos concretos. A clareza estrutural, a abertura física para o bairro reposiciona o edifício como parte viva do cotidiano, mais próximo de uma infraestrutura cultural do que de um objeto isolado. “A estrutura em aço permite eliminar muros e transformar o edifício em suporte para a vida urbana”. Uma afirmação que desloca a técnica do campo construtivo para o campo social.

Mais do que um bar ou um ateliê, o conjunto atua como nó de convivência em São Paulo. O Brotero 39 ao aceitar a cidade como ela é, responde com arquitetura direta, técnica legível e abertura programática, demonstrando que a urbanidade se constrói pela precisão das decisões arquitetônicas.

 

FICHA TÉCNCA

Projeto Arquitetônico/Arquiteto Responsável: Liba Arquitetura/ Alexandre Liba
Empresa Responsável pela Montagem da Estrutura em Aço: Nova Engemetal
Execução da Obra:  JFLC Obras
Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço: Companhia de Projetos
Área Construída: 170 m²
Volume de Aço Empregado: 12 toneladas
Conclusão da Obra: 2025
Local: São Paulo, SP

 

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