CASA HARAS PATENTE

20/05/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

A Casa Haras Patente parte de uma convicção clara: a organização espacial começa pela estrutura. O sistema em aço assume o papel de matriz do projeto, disciplinando programa, circulação e volumetria desde as primeiras decisões de projeto. Em vez de acomodar a técnica ao desenho, o projeto constrói o desenho a partir da técnica.

Implantada em Jaguariúna, no interior paulista, em um lote irregular e em aclive voltado à mata, a residência de 820 m² enfrentou uma questão essencial: como absorver uma complexidade programática elevada sem comprometer unidade e clareza espacial? A resposta não foi formal nem compositiva, mas estrutural, ancorada na inteligência do sistema construtivo.

Para o arquiteto Mauricio Salvi, do escritório Uffizi Arquitetura, a adoção do sistema em aço redefiniu o próprio processo projetual. “A estrutura deixa de ser solução técnica quando se torna decisão inaugural do processo. Não há gesto plástico anterior à técnica; a lógica construtiva é o próprio diagrama”.

A casa abriga um programa multigeracional, condição que costuma gerar compartimentações sucessivas e perda de continuidade espacial. Na Casa Haras Patente, a estratégia foi inversa. O programa foi organizado por níveis e camadas, mantendo continuidade visual e independência funcional. O sistema em aço permitiu a criação de um eixo estruturador que conecta áreas sociais e íntimas, fazendo com que privacidade e fluidez coexistam sem rupturas.

Com 39 metros de frente voltados à paisagem, o volume principal poderia facilmente diluir-se em compartimentos ou consolidar-se como um bloco opaco. Em vez disso, a estrutura atua como instrumento de continuidade. “A estratégia foi reduzir apoios, estabelecer um ritmo legível e permitir que o sistema se manifeste apenas quando necessário”, explica Salvi.

O compasso rigoroso de pilares, em número mínimo, organiza a extensão do volume, enquanto balanços evitam fragmentação e preservam a unidade do conjunto. A infraestrutura permanece discreta, mas decisiva para a leitura espacial.

Nesse contexto, os números deixam de ser dados técnicos e passam a constituir o fundamento do partido arquitetônico. O pé-direito duplo alcança 7 metros de extensão por 6 metros de altura; o living se abre em vãos livres de até 9,5 metros; as esquadrias correm por trás dos pilares e, em alguns trechos, recolhem-se integralmente dentro das paredes, permitindo aberturas contínuas de até 15 metros. A garagem mantém quase 8 metros livres de pilares, enquanto a área de lazer, com 120 m², apoia-se em apenas dois pontos estruturais.

“Essas dimensões determinam a experiência do espaço”, afirma o arquiteto. “São os vãos que organizam a circulação, definem a hierarquia do social e estabelecem a continuidade entre interior e paisagem. Sem o sistema em aço incorporado desde a concepção do projeto, essa amplitude perderia precisão, leveza ou viabilidade técnica”.

Do visível ao invisível

A organização espacial não pode ser dissociada da implantação. Em terrenos inclinados, a decisão construtiva define o grau de liberdade do projeto. O sistema em aço ofereceu controle geométrico e adaptação precisa ao aclive com poucos apoios, condição que preserva a fluidez da planta e amplia a relação com o entorno. A velocidade construtiva teve impacto econômico, mas o argumento determinante foi vencer grandes vãos mantendo leitura unitária mesmo diante da topografia complexa.

As cerca de 40 toneladas de aço empregadas na obra são consequência direta dessas escolhas. Resultam dos balanços, das cargas envolvidas e da busca por rigidez global com mínima interferência espacial. Onde a estrutura precisa assumir espessura, ela se manifesta de forma clara; onde a leveza perceptiva é prioritária, ela se recolhe.

Essa leveza aparente exige disciplina técnica rigorosa. Com poucos apoios e vãos extensos, a estabilidade torna-se pauta central. O sistema estrutural combina contraventamentos em X nas áreas opacas, laterais que funcionam como planos rígidos e a caixa do elevador atuando como núcleo estabilizador. Essa configuração garante rigidez global sem comprometer a fluidez do térreo e a liberdade de planta.

O desempenho estrutural vai além da estabilidade. O conforto vibroacústico foi tratado como parte integrante do sistema. As laterais rígidas colaboram para reduzir vibrações, enquanto as paredes das suítes ajudam a diminuir vãos e flechas no pavimento superior. O resultado é uma residência com comportamento estrutural sólido e níveis de vibração inferiores aos de muitas estruturas convencionais em concreto.

O pé-direito duplo atua como dispositivo organizador. Mais do que gesto formal, articula ventilação cruzada, hierarquia espacial e continuidade visual. A passarela das suítes atravessa esse vazio central, conectando áreas íntimas e sociais sem dissolver privacidades. Elementos como a lareira se alinham a esse eixo, reforçando sua centralidade. O vazio, na Casa Haras Patente, é síntese programática.

A relação entre estrutura e envelope reforça a lógica de precisão. A fachada principal, orientada ao norte, é amplamente envidraçada, enquanto as laterais assumem opacidade estratégica para garantir privacidade e contribuir para a estabilidade estrutural. O sistema em aço viabiliza beirais de 1,5 metro, promovendo sombreamento no verão e incidência solar controlada no inverno. Brises e profundidade de fachada complementam o desempenho térmico e visual, calibrando transparência e densidade conforme a relação com a paisagem.

Essa mesma disciplina orientou o processo construtivo. A estrutura metálica organizou o canteiro desde o início. A fundação foi marcada a laser e executada integralmente antes da montagem metálica. Um projeto executivo detalhado e o diálogo constante entre arquitetura e engenharia reduziram tolerâncias e improvisos. As ligações, predominantemente aparafusadas e mistas, garantiram controle de montagem e precisão dimensional.

A arquitetura se consolida, assim, na articulação entre cálculo, fabricação e montagem. Quando essa cadeia opera com precisão, a estrutura deixa de ser suporte e passa a ser fundamento.

Para quem projeta com aço, a Casa Haras Patente evidencia que, quando a estrutura lidera o processo, a arquitetura ganha precisão, unidade e liberdade. O espaço responde com coerência, sustentado por um sistema que trabalha intensamente, mas se mantém elegante.

FICHA TÉCNICA

  • Projeto Arquitetônico/Arquiteto Responsável: Uffizi Arquitetura / Maurício Salvi
  • Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço: Guerrero Projetos
  • Empresa Responsável pela Montagem da Estrutura em Aço: União Técnica estruturas
  • Execução da Obra: Uffizi arquitetura / Olerino Silva
  • Área Construída: 820m²
  • Volume de Aço Empregado: 40 toneladas
  • Conclusão da Obra: 2025
  • Local: Jaguariúna, SP
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