AULA MAGNA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA / ARQBR

02/09/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

A Universidade de Brasília (UnB) sempre teve uma relação incomum com o território. O campus Darcy Ribeiro foi pensado como território largo, cívico, horizontal, atravessado por percursos, edifícios soltos e vazios capazes de organizar a vida universitária. Entre o Instituto Central de Ciências, a Biblioteca Central e a Reitoria, uma ideia atravessou décadas: construir uma Praça Magna, espaço de encontro, cerimônia, cultura e pertencimento coletivo.

A Aula Magna da UnB surge desse intervalo histórico. O edifício retoma uma intenção presente desde a fundação da universidade, nos anos 1960, prevista no plano urbanístico criado por Lúcio Costa e desenvolvida, em sua dimensão arquitetônica inicial, por Oscar Niemeyer. A obra jamais chegou a ser erguida. Agora, em nova etapa, a proposta do escritório ARQBR transforma essa ausência em arquitetura: uma grande cobertura metálica, sustentada por quatro pilares, sobre um auditório para cerca de 1.500 pessoas.

O projeto atual tem autoria de André Velloso, Eder Alencar, Matheus Gorovitz, Cláudia Garcia e Danielle Gressler, com estrutura e instalações de Miguel Maratá. A previsão de conclusão é 2028. A área construída será de 7.033 m², inserida em uma operação urbana mais ampla, com extensa área de urbanização e paisagismo na Praça Maior. Mais que um auditório, a Aula Magna foi desenhada como praça coberta: um lugar onde cerimônias acadêmicas, espetáculos, formaturas, palestras e encontros culturais possam acontecer sob um único plano suspenso.

A história recente do projeto passa pelo concurso de 2010 para a Praça Magna. A equipe liderada por Matheus Gorovitz venceu a disputa, com participação de Eder Alencar, Cláudia Garcia e outros arquitetos. A proposta foi interrompida em 2011 e retomada anos depois, até ser atualizada entre 2023 e 2024 para viabilizar a construção da Aula Magna como etapa autônoma. A essência permaneceu: cobrir uma porção do campus sem bloquear sua continuidade.

Para Eder Alencar, o conceito estrutural se organiza pela relação entre dois planos: o da cobertura e o do chão. “Optou-se por priorizar e valorizar os vazios estruturais em relação aos cheios”, afirma o arquiteto. A informação define o partido, que busca fazer com que o piso se estenda além dos limites do auditório, enquanto o teto metálico paira acima, criando continuidade fluida entre espaço interno e externo.

Essa operação exige uma escolha clara de materiais. Tudo que pertence ao solo, fundações, muros de arrimo, arquibancadas, rampas e lajes de transição no subsolo, será resolvido em concreto, moldado in loco ou pré-moldado. O coroamento, por sua vez, ficará inteiramente a cargo do sistema em aço. “A cobertura flutua acima, concebida em estrutura metálica leve, garantindo que o teto atue de forma independente”, explica Alencar.

O contraste com o campus é deliberado. Instituto Central de Ciências, Reitoria e Biblioteca têm forte presença de concreto aparente, marca da construção de Brasília. A Aula Magna escolhe outro registro material. A cobertura metálica cria contraponto visual e técnico, sem romper a escala do conjunto. O sistema construtivo em aço entra como plano de leveza sobre uma base mineral.

A solução estrutural concentra a força do projeto. A cobertura será formada por uma grelha metálica espacial, composta por treliças com linhas horizontais em perfis abertos do tipo W e diagonais tubulares transversais. As treliças principais terão altura entre 2,10 m e 2,35 m, largura de 0,25 m e modulação regular a cada 5 metros. O vão central chega a 45 metros. Os balanços avançam cerca de 20 metros no perímetro.

Esses números explicam a presença do aço. Uma cobertura desse porte, apoiada em apenas quatro pilares, precisa vencer grandes distâncias, resistir ao vento, controlar deformações e, ao mesmo tempo, preservar a sensação de leveza desejada pelo partido. “A linearidade e o desempenho estrutural da grelha de aço foram essenciais para vencer os grandes vãos e os longos balanços”, afirma Alencar.

Os apoios foram posicionados para liberar a área central. A estrutura metálica trabalha com eixos perimetrais suportados por pilares de seção fechada, locados de modo a manter a praça desobstruída. Com paredes e arrimos recuados, os balanços funcionam como abas de uma grande varanda. A cobertura protege, orienta e amplia a área de permanência, sem transformar o auditório em caixa fechada.

A topografia do campus participa da solução. A inclinação natural do terreno será incorporada à configuração da plateia e aos desníveis do espaço. Lajes maciças em concreto, arrimos e fundações escalonadas adaptam o chão às cotas das saídas norte e sul do ICC. A arquibancada nasce dessa condição. O relevo, em vez de obstáculo, passa a desenhar a experiência do auditório.

A cobertura metálica, acima, reúne precisão e risco controlado. Balanços de 20 metros exigem atenção especial às ações de vento.
O projeto considera simulações para rajadas V0 = 40 m/s e coeficientes de pressão interna e externa baseados na NBR 6123. A estabilidade do grande plano será assegurada pela rigidez torsional das treliças transversais e pelas conexões engastadas nos pilares compostos. A grelha atua como diafragma rígido. A drenagem será integrada à geometria de baixa inclinação.

O sistema combina diferentes famílias de aço. As vigas do tipo W serão em aço patinável ou estrutural de alto limite de escoamento, ASTM A572 Grau 50. Diagonais e contraventamentos usarão perfis tubulares circulares e quadrados em A-500 Grau C. Os quatro pilares metálicos terão seções fechadas delgadas, com cerca de 0,66 m, especialmente desenvolvidas para a obra. A cobertura deixa de ser simples telhado e passa a operar como peça técnica de alta responsabilidade.

A praça coberta também precisa responder a conforto acústico, térmico, visual e operacional. O fechamento combina fachadas de vidro e painéis acústicos, preservando transparência e desempenho. A cobertura utilizará sistemas termoacústicos do tipo sanduíche para controle de insolação. Internamente, paredes em drywall  com isolamento acústico, forros fonoabsorventes em material derivado de garrafa PET, grelhas colmeia metálicas, painéis  e portas acústicas e venezianas que permitem a passagem do fluxo de ar e reduzem ruído deverão compor o pacote técnico do auditório.

O programa exige essa camada de precisão. Um espaço para 1.500 pessoas precisa equilibrar inteligibilidade sonora, circulação, evacuação, segurança contra incêndio e conforto ambiental. A estrutura principal de aço receberá pintura e revestimento intumescente, com desempenho mínimo previsto de 60 minutos de resistência e integridade estrutural durante a evacuação. Para proteção anticorrosiva, o sistema especifica jateamento em grau SA 2 1/2, primer epóxi rico em zinco metálico, camada intumescente e acabamento ignífugo em poliuretano acrílico. Elementos expostos às intempéries terão película adicional.

A abertura para o exterior amplia a complexidade. O palco deverá funcionar tanto voltado ao auditório quanto conectado à esplanada entre Reitoria e Biblioteca. Para isso, o projeto prevê divisórias retráteis articuladas e empilháveis, com índice de redução sonora mínimo de 46 dB. Quando recolhidas, elas conectam o palco ao espaço externo e transformam a Aula Magna em equipamento de dupla condição: sala e praça, evento formal e encontro aberto.

Essa ambiguidade é uma das qualidades mais fortes da proposta. A cobertura abriga o auditório, mas também cria cidade universitária. O fechamento em vidro permite integração visual entre interior e campus. Quem passa do lado de fora poderá acompanhar parte das atividades. Quem está dentro continuará vendo a paisagem. A arquitetura trabalha a favor de uma vida acadêmica menos segregada por paredes.

A obra futura terá desafio logístico sensível. O complexo ficará no núcleo ativo do campus Darcy Ribeiro, em área de uso cotidiano por estudantes, professores, servidores e visitantes. O planejamento de canteiro, transporte e içamento deverá reduzir lama, ruídos, vibrações e impactos sobre o solo do entorno. A modulação de 5 metros favorece pré-fabricação das treliças fora do local e montagem por parafusamento na obra, estratégia coerente com a necessidade de precisão e menor interferência.

A contribuição técnica do sistema em aço aparece com força rara. Ele vence 45 metros de vão, sustenta balanços de 20 metros, reduz apoios, permite a praça coberta, acelera a montagem e dá identidade à Aula Magna. “O aço é o viabilizador sistêmico do partido arquitetônico”, resume Eder Alencar. A expressão é precisa. O material condensa estrutura, linguagem e urbanidade em um único gesto.

Há também uma dimensão simbólica. Desde sua origem, a UnB tratou arquitetura, ensino e vida pública como dimensões inseparáveis de uma mesma ideia de universidade. A Aula Magna retoma essa tradição ao criar um lugar de reunião coletiva no centro do campus.

Quando estiver pronta, a Aula Magna deverá completar uma ideia aguardada por mais de 60 anos. Sua força virá da precisão com que transforma leveza em infraestrutura cívica. A universidade ganhará um auditório. O campus ganhará uma praça coberta. Brasília ganhará uma peça em que o sistema em aço, finalmente, faz o vazio falar.

 

FICHA TÉCNICA - AULA MAGNA
 
>  Projeto Arquitetônico/Arquiteto Responsável:
ARQBR/ André Velloso, Eder Alencar, Matheus Gorovitz, Cláudia Garcia e Danielle Gressler

> Empresa Responsável pelo Projeto e Fabricante da Estrutura em Aço: Ainda não definido

> Execução da Obra: Ainda não definido

> Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço: Miguel Maratá

> Área Construída: 7.033 m²

> Volume de Aço Empregado: 1.295 toneladas

> Conclusão da Obra: 2028

> Local: Brasília, DF

 

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