27/08/2026 | Notícia

A primeira imagem é náutica. A casa parece procurar a água antes mesmo de tocar o terreno. Em Ibiúna, de frente para a represa, Bruno Rubiano desenhou uma residência de 900 m² movida por uma ideia clara: fazer a arquitetura avançar sobre a paisagem com a precisão de um casco, a leveza de uma passarela e a disciplina construtiva do sistema em aço.
A metáfora do barco aparece na forma, nos planos inclinados, na presença dos brises e no modo como o percurso interno conduz o olhar até a água. Mas a força do projeto está no sistema que a torna possível. A Casa da Represa nasce de condições restritivas: um lote com 13 m de desnível, regras internas de recuo, necessidade de preservar a topografia e o desejo de manter a vista como eixo da experiência doméstica.
“O conceito em aço foi o partido inicial”, afirma Bruno Rubiano. Para o arquiteto, a escolha do material resolveu ao mesmo tempo implantação, execução, modulação e linguagem. O lote pedia uma casa capaz de se adaptar ao declive sem domesticar o terreno. O aço entrou como instrumento de precisão.

A residência inteira foi desenvolvida em sistemas metálicos. Na estrutura portante, foram utilizadas vigas I de 530 mm de altura e em algumas situações, foram utilizadas vigas-caixão. Os brises receberam peças de 100 x 400 mm. Pergolados foram executados com elementos de 100 x 100 mm. Beirais, bases de sustentação dos brises e estruturas dos pergolados chegaram a 100 x 600 mm. Ao todo, a obra empregou cerca de 30 toneladas de aço.
A escolha estrutural tem relação direta com a topografia. A casa encaixa- se no terreno e, ao mesmo tempo, se afasta dele. Rubiano resume o partido com precisão: “A residência encaixa na topografia sem encostar no solo”. Isso explica a operação central do projeto. Em vez de vencer o declive por cortes agressivos ou aterros extensos, a estrutura organiza apoios, distribui cargas e cria pavimentos capazes de pairar sobre o desnível.

Esse raciocínio define o desenho da casa. As vigas permanecem alinhadas, a carga se distribui com regularidade e os apoios aparecem onde preservam a vista. A topografia deixa de ser obstáculo. Vira matriz. O sistema construtivo em aço permite ampliar vãos, reduzir interferências no campo visual e criar um percurso doméstico que alterna compressão, abertura e contemplação.
O ponto mais eloquente dessa estratégia aparece na passarela interna. Ela organiza a circulação como uma galeria suspensa, passa sobre um pé-direito triplo de aproximadamente 13 m conduz o morador até o mirante voltado para a represa. Sob o piso, vigas I sustentam as lajes. Acima delas, a passarela surge como um tapete de concreto pousado sobre a estrutura, com extremidades livres e apoios discretos. Algumas peças metálicas ficam aparentes; outras se escondem dentro da arquitetura. O resultado evita peso visual e reforça a sensação de travessia.

A estrutura também resolve um ponto sensível do programa: a coleção de automóveis do cliente. A garagem foi tratada como pátio expositivo, com vista para a represa e possibilidade de ser observada a partir da área social. O hall recebeu piso de vidro, permitindo ver os carros a partir do acesso principal.
Abaixo, a área de veículos apoia- se em seis pilares, solução que ampliou a quantidade de vagas e ajudou a vencer a topografia. A garagem preserva a privacidade da fachada e, ao mesmo tempo, participa da experiência espacial da casa.

A escala dos vãos revela o papel do aço com ainda mais clareza. Na área social, uma porta de 13 x 7 m, dividida em cinco folhas, abre sala de estar e gourmet para a represa. O vão exigiu reforço com duas vigas I soldadas uma à outra, além de caixilharia capaz de combinar movimento, estanqueidade e estabilidade.
A relação entre vidro e aço é decisiva. A casa aposta em grandes superfícies transparentes para aproximar interior, jardim, piscina, área náutica e água. Esse gesto, porém, cobra desempenho. Em um projeto com tamanho grau de abertura, controle solar, privacidade e conforto térmico passam a depender dos elementos metálicos da fachada.

Os brises assumem esse papel. Eles desenham a identidade da residência, reforçam a leitura de barco e atuam como filtro climático. “O brise metálico trouxe privacidade e isolamento térmico para o projeto”, explica o arquiteto. O desenho nasceu de estudos de insolação e de proporção. A altura da casa em relação ao terreno reforçou a analogia náutica: o acesso, os planos verticais e os elementos de fachada constroem a sensação de entrada em uma embarcação.
Esses brises integram o corpo estrutural. Suas ancoragens e fixações foram conectadas à lógica metálica do conjunto. O sistema atua na imagem, na proteção solar, na privacidade e no desempenho térmico. Rubiano destaca que a casa dispensa ar-condicionado. Afastamento dos brises, pergolados e sombreamento formam uma camada ambiental passiva. A fachada trabalha antes do equipamento. O conforto começa no desenho.

A materialidade acompanha essa lógica. O aço estrutura e modula. O vidro abre a casa para a represa.
A cobertura recorre a laje maciça e manta asfáltica, escolha ligada à impermeabilização. Quanto à proteção contra corrosão, os elementos metálicos receberam pintura com camadas acima de 200 micras, solução voltada à durabilidade em ambiente exposto a sol, umidade e variações climáticas. A manutenção prevista concentra-se em repintura de acordo com a necessidade da proteção.
A Casa da Represa também mostra uma frente menos visível da construção em aço: sua capacidade de organizar decisões. O material aparece como estrutura, fachada, filtro, apoio, moldura e linguagem. Em um terreno complexo, com grandes aberturas, percurso suspenso, garagem expositiva, mirante e uma relação visual intensa com a água, a precisão do sistema metálico permitiu que a arquitetura mantivesse uma ideia única do início ao fim.

Rubiano defende essa integração. Para ele, a contribuição técnica do aço está no conjunto: grandes vãos com peças relativamente esbeltas, pilares com dimensões contidas, modulação compatível com o cálculo e economia obtida pelo uso correto do material. “O relevante é como o sistema atende, com pequenas vigas, grandes vãos”, afirma. A frase sintetiza a obra.
A casa olha para a represa, mas sua inteligência está naquilo que sustenta esse olhar. O sistema em aço permite que a residência se afaste do solo, preserve o declive, otimize apoios, proteja ambientes, module brises, vença aberturas e transforme a fachada em instrumento climático. A imagem do barco encontra, finalmente, sua razão técnica: flutuar exige estrutura.

FICHA TÉCNICA - CASA REPRESA
> Projeto Arquitetônico/Arquitetos Responsáveis: Bruno Rubiano/ Studio Bruno Rubiano Arquitetura
> Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço: União Técnica
> Execução da Obra: Bruno Rubiano
> Área Construída: 900 m²
> Responsável pela Montagem da Estrutura em Aço: Engenheiro Miquéias Vieira Lemes
> Volume de Aço Empregado: 30 toneladas
> Conclusão da Obra: 2024
> Local: Ibiuna, SP
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