09/09/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

Cobrir uma arena para 100 mil pessoas significa reunir sombra, ventilação, escoamento, visibilidade e segurança em uma única operação estrutural. No Espaço Show do Parque Novo Mato Grosso, em Cuiabá, essa operação assume a forma de uma grande superfície metálica de 23.585,20 m², composta por 924,24 toneladas de aço e sustentada por 36 apoios inclinados.
A arquitetura previa uma grande superfície curva, de baixa inclinação e com sucessivas transições de plano. “O principal desafio foi compatibilizar uma cobertura de grande porte com um desenho marcado por superfícies curvas e geometria não convencional”, afirma o engenheiro Leonardo Caberlin, responsável pelo projeto ao lado de Marcelo Cauze, ambos da MTPAR.

Para vencer essa geometria, a engenharia recorreu a treliças espaciais retangulares. As peças principais têm 2 metros de altura por 70 centímetros de largura, com banzos em perfis W e diagonais e montantes tubulares. O conjunto se organiza em módulos de 12 metros, unidos por ligações flangeadas.
Nas camadas secundárias, terças em perfis duplo U enrijecido, correntes e mãos-francesas completam o travamento do plano superior. “As mãos-francesas, além de contribuir para o dimensionamento das terças, também possuem função no sistema de estabilização horizontal da cobertura”, explica Leonardo.

“A estrutura foi desenvolvida para explorar as melhores características de cada material”, resume Leonardo. A arena organiza essa lógica estrutural em dois níveis. Na base, fundações e pilares garantem robustez, estabilidade e durabilidade. No alto, a estrutura em aço assume o trabalho mais sensível: vencer grandes distâncias com menor peso próprio, precisão industrial e esbeltez.
Dos apoios inclinados, as cargas da cobertura em aço seguem para fundações profundas, formadas por estacas escavadas de 70 centímetros de diâmetro e 10 metros de comprimento, amarradas por grandes blocos armados. O ponto mais delicado estava justamente no encontro entre a base resistente e o plano metálico superior. “A ligação entre os dois materiais foi pensada para manter a maior rigidez possível”, diz Leonardo. Dela dependiam o controle das deformações, a distribuição dos esforços e a preservação da geometria curva da arena.

A rigidez das conexões foi avaliada por modelagem computacional e incorporada ao modelo global da estrutura, permitindo calibrar esforços, deformações e estabilidade. “A cobertura também passou por ensaio em túnel de vento, com análise de sucção, sobrepressão, atrito, efeitos em platibandas e comportamento das tesouras principais”, conta o engenheiro. Nos elementos metálicos principais, a proteção contra incêndio foi resolvida com pintura intumescente, dimensionada para resistir ao fogo por 30 minutos, conforme o TRRF previsto.
O dado que organiza o projeto está no vão central: 80 metros livres. A ele se somam dois vãos adjacentes de 44 metros e balanços de até 8 metros nas bordas. “A principal contribuição da estrutura em aço é a sua elevada relação resistência/peso”, avalia Leonardo. Essa característica permitiu vencer a grande distância sem inserir pilares na área de uso.

Em uma arena multiuso, a ausência desses apoios preserva linhas de visão, libera diferentes configurações de palco, quadra, arquibancadas móveis e estandes, além de favorecer a circulação de grandes públicos. “Para um espaço projetado para até 100 mil pessoas, a eliminação desses pilares internos traz benefícios diretos e indispensáveis”, observa o especialista. O aço, nesse caso, sustenta a forma e também define a qualidade operacional do espaço.
Com a estrutura definida, a etapa seguinte era transformar o grande esqueleto metálico em cobertura acabada, estanque e termicamente eficiente.

“A partir das premissas da engenharia estrutural, a empresa que especificou e forneceu os produtos da cobertura atuou na especificação de uma solução de cobertura compatível com a escala do empreendimento, considerando grandes vãos, baixa inclinação, geometria curva, estanqueidade, desempenho térmico e acabamento arquitetônico”, explica Daniela Assumpção, gerente de novos projetos da companhia, especializada em sistemas de cobertura, isolamento e desempenho térmico.
A solução especificada combina deck metálico, núcleo isolante em PIR e membrana TPO, reunindo base metálica, isolamento térmico e impermeabilização em um sistema contínuo. A escolha respondia a uma dificuldade concreta. Como explica Leonardo, curvas, diferentes inclinações e transições de plano dificultariam o uso de telhas convencionais. Sistemas rígidos e modulares levariam a recortes, sobreposições e peças especiais; o sistema adotado preserva a leitura contínua do plano superior e amplia o controle da estanqueidade.

Nessa composição, o deck metálico forma a base do fechamento, o PIR reduz a transferência de calor e a membrana TPO cria a camada impermeável, com emendas por termossoldagem a ar quente. Nas calhas embutidas, a vedação avança até os pontos de coleta das águas pluviais, reduzindo descontinuidades em áreas críticas.
O escoamento da água também entrou no raciocínio da cobertura. O estudo identificou caminhos naturais, pontos de concentração e diretrizes para calhas, coletores e condutores. Em quase 24 mil m², drenagem deixa de ser arremate e passa a fazer parte da lógica formal do conjunto.

O conforto térmico decorre da mesma integração entre forma e material. A arena protege o público sem fechar o ambiente, preservando sua condição aberta e favorecendo a ventilação natural. A membrana TPO, de alta refletividade, reduz a absorção de radiação solar; o PIR, de baixa condutividade térmica, limita a passagem de calor para a área ocupada.
Para Daniela, esse desempenho tem consequência direta na operação do equipamento. “Em Cuiabá, isso representa uma vantagem importante não apenas para o conforto dos usuários, mas também para a operação do espaço”, ressalta. Em uma arena de grande porte, a cobertura deixa de ser apenas proteção climática: passa a influenciar a permanência do público, a previsibilidade dos eventos e a capacidade de uso ao longo do ano.
A execução levou a racionalidade industrial da estrutura metálica para a obra. Treliças, terças e suportes chegaram pré-fabricados, prontos para içamento a seco e montagem por conexões flangeadas e parafusadas. “A escolha estrutural transformou o canteiro de obras em uma verdadeira linha de montagem”, resume Leonardo.

O içamento das tesouras principais exigiu planejamento específico. A instalação foi organizada a partir de um Plano de Rigging, estudo técnico que define o levantamento seguro de peças pesadas, com divisão da cobertura em três trechos: o módulo central de 80 metros e dois módulos laterais. A operação estabeleceu sequência de montagem, raio de trabalho dos guindastes, amarrações, interferências de lança e limite máximo de vento para cada manobra.
A precisão do encaixe foi um dos pontos mais sensíveis. As ligações flangeadas entre módulos e o acoplamento aos pilares inclinados exigiram alinhamento milimétrico. Antes do travamento completo por terças, correntes e mãos-francesas, a rigidez global ainda estava em formação. O acompanhamento topográfico contínuo evitou torções e deformações antes do aperto definitivo das ligações.

“A contribuição técnica mais relevante do sistema construtivo em aço é a liberdade formal atrelada à viabilidade de vencer grandes vãos livres”, sintetiza Leonardo. Ou seja, o aço permitiu acompanhar uma geometria curva, alcançar 80 metros de vão central, manter a arena livre de apoios internos e dar ao equipamento a flexibilidade exigida por eventos de grande público.
Nesse equipamento de grande escala, a cobertura é muito mais que abrigo. Ela organiza a dimensão da multidão, controla o clima, conduz água, absorve deformações, recebe camadas de vedação e desenha a presença pública da arena. Em Cuiabá, o grande vão deixa de ser apenas uma medida de engenharia. Torna- se a própria arquitetura do espaço.

FICHA TÉCNICA - ESPAÇO SHOW PARQUE NOVO MATO GROSSO
> Projeto de Engenharia/Engenheiros Responsáveis: MTPAR / Leonardo Caberlin e Marcelo Calze
> Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço, montagem e execução da obra: Lotufo - Engenharia e Construções Ltda.
> Fornecimento do sistema de cobertura: Kingspan Isoeste
> Área Construída: 23.585,20 m²
> Volume de Aço Empregado: 924,24 toneladas
> Conclusão da Obra: 2026
> Local: Cuiabá, MT
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