Nova sede do Itaú Cultural | Estúdio Módulo

27/08/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

A Avenida Paulista sempre soube trocar de  funções. Já foi endereço de casarões, vitrine corporativa, corredor financeiro, palco político, passeio de domingo, sequência de museus e território diário de multidões. Agora, diante da estação Trianon-Masp, a Fundação Itaú anuncia uma nova etapa para o Itaú Cultural: a construção de um edifício no número 1.267, assinado pelo Estúdio Módulo, com entrega prevista para 2031.

A instituição já ocupa a Paulista. O novo prédio, portanto, deve ser lido como expansão de presença, de programa e de ambição urbana. A proposta de Marcus Vinicius Damon, Guilherme Bravin e Érica Tomasoni parte de uma pergunta difícil: como construir um centro cultural vertical em uma das avenidas mais intensas do Brasil sem transformar o edifício em peça fechada, isolada da calçada e do movimento público que o cerca?

A resposta começa pelo sistema construtivo. A futura sede terá 12.275 m² de área total e 11.336,15 m² de área construída, distribuídos em 12 níveis elevados e sete pavimentos enterrados, segundo a ficha técnica do Estúdio Módulo. Perfis metálicos, ligações, tonelagem de aço, proteção, montagem e detalhamento da fachada virão nas próximas fases. O essencial, porém, já está traçado: uma construção mista, com sistema em aço predominante, lajes tipo steel deck e núcleos em concreto armado.

Para Marcus Vinicius Damon, arquiteto e um dos sócios-fundadores do Estúdio Módulo, essa escolha tem papel espacial, urbano e cultural. “Desde o início, entendemos que a estrutura deveria participar ativamente da construção da experiência arquitetônica, e não apenas resolver questões técnicas”, afirma o arquiteto. A engenharia prevista abre espaços, organiza percursos, sustenta terraços e prepara o edifício para funcionar como uma sequência de encontros entre cidade, arte, luz e circulação.

O objetivo urbano também aparece com clareza. A nova construção deverá estabelecer uma relação intensa com a Avenida Paulista, visual e espacialmente, quase como continuidade do espaço público. Para isso, o projeto concentra apoios estruturais nas fachadas longitudinais e libera áreas internas amplas. Essa decisão reduz interferências nos ambientes de uso público e permite que luz, circulação e paisagem atravessem a seção do edifício.

A escolha pelo sistema em aço ganha sentido nesse ponto. Em um centro cultural, a planta precisa aceitar mudanças constantes: exposições, instalações, performances, programas educativos, debates, apresentações, encontros e atividades simultâneas. A estrutura metálica, associada ao steel deck, reduz peso próprio, favorece grandes vãos, racionaliza a construção e amplia a liberdade de configuração dos espaços. Os núcleos em concreto, por sua vez, devem garantir rigidez, estabilidade global e resistência às ações horizontais.

A Paulista torna essa combinação ainda mais necessária. Construir nesse eixo significa lidar com tráfego intenso, fluxo permanente de pedestres, vizinhança consolidada, subsolos complexos, restrições de canteiro e alto grau de exposição pública. A predominância metálica favorece pré-fabricação, agilidade de montagem e maior controle executivo. Nesse contexto, o sistema em aço deixa de ser apenas solução estrutural e passa a atuar como ferramenta de precisão urbana.

A volumetria proposta se organiza das condicionantes do lote. Recuos, limites de ocupação e exigências urbanísticas foram absorvidos como instrumentos de projeto. Os pavimentos superiores apresentam retrações; os níveis inferiores ampliam gradualmente a ocupação; o corpo da edificação muda de geometria ao longo da altura. A estrutura prevista acompanha essas transformações por meio de vigas de transição, sistemas treliçados e pilares inclinados, capazes de redistribuir esforços sem enfraquecer a leitura arquitetônica.

Essa lógica interessa porque transforma condicionante em expressão. As transições estruturais deverão aparecer como parte da linguagem do edifício. Vigas de grande altura, diagonais metálicas, contraventamentos e treliças indicam como a construção se apoia, muda de seção e vence vãos. A técnica ganha presença legível, sem assumir tom de demonstração. O edifício pretende mostrar sua inteligência construtiva com naturalidade.

Nos pavimentos elevados, a estratégia central é a flexibilidade. A concentração dos pilares nas fachadas longitudinais libera os espaços expositivos e permite pavimentos contínuos, com diferentes alturas livres. Essa condição favorece múltiplas montagens curatoriais e dá margem para que a instituição altere usos ao longo do tempo. “Em arquitetura cultural, permanência depende de capacidade de adaptação”, destaca Marcus. Um prédio rígido envelhece rápido; uma estrutura generosa acompanha a mudança.

Nos níveis enterrados, o problema estrutural muda de natureza. Teatro, auditório e foyer pedem vãos largos, visibilidade, controle técnico e áreas centrais livres. “Para viabilizar esses programas, o projeto prevê treliças de transição capazes de vencer grandes distâncias e organizar os fluxos de carga”, diz o arquiteto. A solução qualifica o subsolo como parte ativa do centro cultural, e não como simples base técnica da torre.

A Clareira aparece como peça decisiva dessa seção. O vazio deverá levar luz natural, ventilação e vegetação aos níveis inferiores, criando conexões visuais entre pavimentos enterrados e áreas superiores. A operação tira o subsolo da condição opaca e constrói uma relação mais generosa entre profundidade, permanência e orientação espacial. A cidade entra pelo térreo; a claridade desce; os percursos se encontram.

Acima da cota da rua, os terraços deverão manter o vínculo direto com a Avenida Paulista. Eles funcionam como pausas, mirantes, áreas de convivência e extensões dos programas internos. A circulação vertical deixa de ser infraestrutura neutra e passa a integrar a experiência cultural. Subir, atravessar, olhar, parar e reencontrar a cidade em outra altura tornam-se movimentos previstos pelo projeto.

A fachada concentra a imagem pública dessa proposta. O Estúdio Módulo prevê uma pele leve de brises brancos, independente da estrutura principal. Esse sistema deverá atuar como filtro solar, controle de luz natural, elemento de conforto ambiental e interface visual com a avenida. A definição final do material — metálico ou cerâmico — será tomada nas próximas fases, em diálogo com a Fundação Itaú e o Itaú Cultural.

A intenção da envoltória, porém, já está desenhada. De longe, os brises devem formar uma superfície clara, ritmada, quase abstrata. Na aproximação, a pele revela terraços e planos internos coloridos. Nas visadas oblíquas, a percepção muda com o deslocamento do pedestre. O edifício será visto de modos diferentes conforme o corpo se move pela calçada.

O arquiteto relaciona essa experiência à arte óptica, à arte cinética e às investigações da arte concreta brasileira. Segundo ele, a referência aparece na modulação, na cor, no filtro, na variação visual e na ativação do olhar pelo movimento. A fachada deverá controlar sol e construir presença urbana ao mesmo tempo. Os planos internos em tons terracota, associados às escadas e circulações, introduzem uma camada ligada à arte popular brasileira e ao caráter material dos percursos.

A separação entre estrutura resistente e pele externa reforça a clareza técnica do conjunto. O sistema misto organiza vãos, estabilidade, transições e flexibilidade. A envoltória regula luz, transparência, conforto e imagem. Cada parte tem função própria; o valor da proposta está na articulação entre elas. Estrutura, circulação, fachada e programa foram pensados como uma mesma cadeia espacial, de acordo com a equipe do Estúdio Módulo.

Marcus Vinicius Damon resume a escolha pelo sistema construtivo em aço como convergência entre desempenho, intenção arquitetônica e velocidade de montagem. “Mais do que uma decisão tecnológica, a estrutura metálica foi entendida como um instrumento para ampliar a liberdade espacial da arquitetura”, afirma o arquiteto. Assim, o aço deve permitir que a futura sede permaneça aberta, reconfigurável e preparada para práticas culturais em transformação.

O estágio atual do projeto pede precisão verbal. A estrutura principal ainda terá seu detalhamento executivo desenvolvido. Perfis, ligações, sistemas de proteção contra corrosão, resistência ao fogo, planejamento de montagem, içamentos, sequenciamento do canteiro e soluções finais da fachada serão definidos em breve. A reportagem, portanto, observa a arquitetura em momento raro: antes da obra, quando o sistema construtivo em aço já aparece como raciocínio, embora os componentes finais ainda aguardem engenharia.

Esse momento revela muito. A proposta vencedora não trata o material como imagem de modernidade, mas como instrumento para resolver cidade, programa e seção. O aço ajuda a liberar o térreo, amplia vãos internos, favorece montagem racionalizada, sustenta mudanças de geometria e prepara o edifício para receber usos simultâneos. O concreto armado ancora o conjunto. O steel deck racionaliza as lajes. As treliças resolvem grandes aberturas. Os brises filtram a relação com a avenida.

O novo edifício também deverá reforçar a Avenida Paulista como corredor cultural. Ao lado de instituições como MASP, Instituto Moreira Salles, Sesc Avenida Paulista e Japan House, o Itaú Cultural poderá ampliar sua presença pública em um ponto de altíssima visibilidade. A diferença estará na forma como essa presença se materializa. O projeto evita a ideia de caixa cultural autônoma e propõe um edifício atravessado por percursos, vazios, terraços e relações visuais.

A cultura, nesse caso, aparece menos como destino fechado e mais como movimento. A estrutura prevista sustenta essa mudança de postura. O visitante deverá entrar, subir, descer, olhar, permanecer, atravessar vazios, encontrar luz nos subsolos, ver a Paulista dos terraços e perceber a fachada como filtro em transformação. A arquitetura passa a organizar uma experiência pública em altura.

Ainda há distância entre projeto e canteiro. A previsão de conclusão em 2031 coloca a obra em um horizonte longo, sujeito a amadurecimento técnico, compatibilizações e decisões executivas. Mas a intenção já possui força suficiente para indicar uma contribuição relevante ao debate sobre edifícios culturais em áreas densas: o novo prédio do Itaú Cultural pretende crescer para cima sem se afastar da rua.

Em uma avenida acostumada a fachadas fortes e edifícios emblemáticos, o Estúdio Módulo propõe uma construção futura interessada em deixar passar: luz, gente, vista, cor, circulação, encontro. Se a obra confirmar o que o projeto anuncia, a Paulista ganhará uma travessia vertical sustentada pelo aço; um edifício cultural pensado para permanecer em movimento.

 

FICHA TÉCNICA -  ITAÚ CULTURAL
 

>  Projeto de Arquitetura/Arquiteto Responsável: Estúdio Módulo/ Marcus Vinicius Damon, Guilherme Bravin e Érica Tomasoni

> Empresa Responsável pelo Projeto e Fabricante da Estrutura em Aço: Ainda sem definição

> Execução da Obra: Ainda sem definição

> Área Construída: 12.275 m²

> Volume de Aço Empregado: Ainda sem definição

> Conclusão da Obra: 2031

> Local: São Paulo, SP

 

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