Nova sede Grupo Ceolin / AT ARQUITETURA

02/09/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

Reformar uma sede em funcionamento já exige precisão. Ampliá-la por cima, com a rotina da empresa acontecendo no térreo, pede uma decisão ainda mais fina: criar uma nova estrutura capaz de crescer junto ao edifício existente sem transformar a construção original em suporte principal do acréscimo. Na sede do Grupo Ceolin, em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, a AT Arquitetura encontrou essa resposta no sistema em aço.

O projeto, assinado por André Detânico, Tarso Carneiro e Maurício Ceolin, parte do edifício mais antigo do conjunto empresarial. Em vez de substituí-lo, a intervenção o incorpora a uma etapa maior de renovação: reforma o térreo, acrescenta um novo pavimento, organiza uma laje técnica superior e reposiciona a imagem institucional dentro de um masterplan agrônomo que também estrutura pórtico de acesso, estacionamentos e fluxos da propriedade.

“A sede é o centro do masterplan e o cérebro da empresa; é dela que nasce toda a estratégia da operação”, resume Maurício Ceolin. Essa leitura orienta a obra. A ampliação precisava aumentar capacidade, atualizar os ambientes de trabalho e reforçar a presença corporativa, preservando a construção original como parte ativa da história do Grupo Ceolin.

A estratégia estrutural foi separar as responsabilidades. O novo volume recebeu uma estrutura metálica autônoma, apoiada em fundações profundas próprias e justaposta à estrutura de concreto existente. Os pavimentos ampliados descarregam em pilares metálicos HP 250×62 — perfis laminados de seção H, com cerca de 250 mm de altura e 62 kg por metro — ancorados em novos blocos de concreto. “Optou-se por tornar a estrutura nova independente da existente”, conta o arquiteto.

Antes de definir o acréscimo vertical, a equipe investigou a construção existente. Vigas baldrames e sapatas foram levantadas; lajes e vigas receberam escoramento antes das intervenções nas fundações. A leitura técnica apontou o caminho mais seguro: criar uma nova ossatura, com percurso próprio de cargas, capaz de se aproximar do edifício original sem transferir a ele o peso da nova construção.

A independência começa abaixo do piso. A ampliação se apoia em 34 estacas escavadas e 18 blocos de concreto, formando uma base própria para os pilares metálicos. Em um dos eixos, os novos apoios foram implantados junto aos pilares existentes, operação que exigiu remover sapatas antigas, executar estacas próximas à edificação e criar blocos capazes de receber as armaduras originais. O resultado é uma convivência precisa entre duas estruturas: próximas na leitura arquitetônica, independentes no comportamento resistente.

Os pavimentos ampliados foram resolvidos integralmente em aço. A solução utiliza perfis laminados ASTM A572 Grau 50 nos elementos principais, chapas e enrijecedores em ASTM A36/SAE 1020, pilares HP e vigas da série W. As lajes são pré- fabricadas, com capa de concreto de 5 cm. O conjunto trabalha com pórticos de perfis laminados, solução direta, limpa e compatível com uma obra executada por partes.

O térreo reformado soma 562,45 m². A ampliação acrescenta 651,4 m² entre segundo pavimento e laje técnica. A nova estrutura alcança cerca de 7,5 m sobre a referência e vence vãos de até aproximadamente 10 m. Foram utilizadas 27 toneladas de aço.

Mais importante que o peso do material é o espaço que ele libera. “Os vãos de até 10 metros em pórticos de perfis laminados reduzem o número de apoios internos e viabilizaram plantas livres nos dois pavimentos”, explica Maurício Ceolin.

Essa decisão permite que o térreo reformado receba recepção, salas de reunião, setores administrativos, agronomia, pecuária, COA/TI, family office e área interna para veículos. No pavimento superior, o edifício abriga diretoria, salas individuais e compartilhadas, sala de reuniões, espera e auditório com memorial e estar anexos.

A estrutura metálica cria o suporte; as divisórias leves dão liberdade ao uso. Vidros simples e duplos, persianas integradas, gesso acartonado e alvenarias pontuais permitem que os ambientes acompanhem mudanças futuras de equipe, gestão e operação. O conjunto passa a funcionar com outra hierarquia interna, mais aberta e mais adaptável.

A circulação vertical participa dessa atualização. Uma nova escada metálica, com degraus de basalto e guarda-corpo de vidro, conecta os pavimentos junto à recepção. O elevador completa o percurso. A chegada ao segundo pavimento deixa de ser simples deslocamento funcional e passa a marcar a transição entre a base existente e a nova etapa do edifício.

A fachada torna visível essa operação. No pavimento ampliado, esquadrias de alumínio e vidro formam planos contínuos, modulados em peças de aproximadamente 1,20 m e altura piso-teto de 3,03 m, alinhadas aos eixos da estrutura metálica. Folhas fixas e módulos maxim-ar se alternam no perímetro, garantindo ventilação pontual sem quebrar a leitura contínua do volume superior. O anexo aparece como nova camada construtiva: leve, ritmada e assumida sobre a base original.

O embasamento preserva outra densidade. A alvenaria existente, revestida com elementos cerâmicos , mantém a presença material do edifício antigo. Na fachada sul, placas moduladas em dois planos, com avanço de 10 cm, criam relevo e atualizam a imagem institucional. A construção ganha contemporaneidade sem disfarçar a diferença entre aquilo que estava ali e aquilo que foi acrescentado.

A cobertura segue a mesma disciplina arquitetônica. Sobre o novo pavimento, a estrutura metálica recebe telha termoacústica trapezoidal, com inclinação de 8%, combinando proteção, leveza e desempenho térmico. Terraços e lajes técnicas foram impermeabilizados e protegidos por ecotelhado em sistema alveolar grelhado. As condensadoras de ar-condicionado ficam agrupadas em áreas próprias, ocultas por fechamentos metálicos venezianados, preservando a limpeza visual do conjunto.

Nas interfaces entre novo e existente, a arquitetura depende de detalhes silenciosos: pingadeiras, capeamentos, calhas, lajes impermeabilizadas, ajustes de forro e transições de altura. Em ampliações verticais, esses encontros definem a qualidade final tanto quanto os grandes perfis metálicos. São eles que garantem estanqueidade, compatibilidade e continuidade entre sistemas de épocas diferentes.

A combinação de estrutura metálica e lajes pré-moldadas permitiu montagem a seco, execução por etapas e menor interferência no cotidiano da empresa. Após as fases mais invasivas de fundação e demolição, a obra avançou com rapidez, dos fundos para a frente.

O sistema em aço também participa da linguagem da ampliação. A intenção, segundo Maurício Ceolin, foi “deixar o metal aparente, verdadeiro em sua materialidade”.

A contribuição técnica mais relevante do arranjo estrutural está na viabilização da ampliação vertical. “A leveza dos perfis metálicos sobre fundação profunda independente permitiu adicionar dois pavimentos com acréscimo de carga controlado e mínima interferência na estrutura original”, destaca o arquiteto.

No masterplan agrônomo do Grupo Ceolin, a sede reformada assume papel administrativo e simbólico. Seus acessos se organizam por fluxos distintos: recepção principal, entrada independente para o setor de agronomia e área interna de veículos. A arquitetura amplia a operação, qualifica a imagem corporativa e preserva o edifício que já fazia parte da história da empresa.

A nova sede do Grupo Ceolin não trata o edifício existente como obstáculo nem como relíquia. A base antiga permanece em uso; o sistema construtivo em aço assume o novo esforço; a arquitetura encontra, entre os dois, uma forma precisa de continuidade.

 

FICHA TÉCNICA - NOVA SEDE DO GRUPO CEOLIN
 
>  Projeto Arquitetônico/Arquitetos Responsáveis:
AT Arquitetura/André Detânico, Tarso Carneiro e Maurício Ceolin

> Empresa Responsável pelo Projeto e Montagem da Estrutura em Aço: StudioBIM Engenharia

> Execução da Obra: Ruas Engenharia

> Área Construída: 1.213,85 m²

> Volume de Aço Empregado: 27 toneladas

> Conclusão da Obra: 2024

> Local: Uruguaiana, RS

 

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