PAVILHÃO ARARAS / VENTA ARQUITETOS

02/09/2026 | Notícia | Revista Arquitetura & Aço

O Pavilhão Araras começa antes da arquitetura. Começa no chão difícil. Um terreno em Petrópolis, no Rio de Janeiro, já ocupado por uma casa principal e área de lazer, guardava uma faixa estreita entre cerejeiras, árvores nativas e uma encosta com inclinação próxima de 60%. Gregório Rosenbusch, Laura Rosenbusch e Lorran Kasesky precisavam implantar um pequeno volume residencial: duas suítes para hóspedes e uma moradia para a caseira. A escala era contida, 120 m². A complexidade, alta.

O projeto surgiu de uma decisão construtiva precisa. Em vez de acomodar o terreno à edificação, a edificação se ajustou ao relevo. O pavilhão foi pensado como uma peça elevada, linear, apoiada em quatro pontos, capaz de atravessar a topografia com o mínimo de interferência. “O conceito consistiu em tocar minimamente o solo, com o menor número de apoios e elementos construtivos”, explica Gregório Rosenbusch.

Essa declaração resume a essência do projeto. Quatro apoios, uma linha central de sustentação, fundações profundas, passarelas, piso leve, paredes secas, cobertura metálica. Cada sistema trabalha para reduzir peso, encurtar tempo de obra e preservar as árvores. A arquitetura se torna quase uma operação de precisão em ambiente sensível.

A ideia de “obra aérea e ligeira”, apresentada pelo escritório, tem duplo sentido. Ligeira pela leveza física. Ligeira pela velocidade. O prazo disponível para projeto e execução foi de 200 dias. A estrutura metálica entrou como resposta direta a esse calendário e à logística do terreno. O canteiro era íngreme, arborizado e sem acesso para caminhão Munck. As peças precisavam ser transportadas e montadas com recursos simples. O aço ofereceu previsibilidade, baixa massa e montagem compatível com o lugar.

“A estrutura metálica, concebida com elementos relativamente leves, permitiu a movimentação desses componentes num canteiro difícil”, afirma Gregório. O arquiteto também destacou a vantagem do sistema para a gestão da obra. Como o aço reúne beneficiamento, fornecimento e montagem em um processo mais integrado, o orçamento ganha previsibilidade e a obra, maior controle.

O pavilhão se organiza em um volume de 24,95 m por 3,85 m, apoiado em quatro pontos. Cada apoio combina uma coluna vertical e uma viga de transição horizontal, formando um perfil em T.
Para resolver esforços com seção reduzida e baixo peso, o partido associou pares de perfis I. As colunas foram compostas por dois perfis W310, espaçados e unidos por cantoneiras, formando uma seção de 45 por 31 centímetros. As vigas de transição usam dois perfis W200, também espaçados e associados por peças de mesma seção.

A transição para o solo ocorre por blocos de coroamento em concreto armado, com 60 x 60 x 80 centímetros, apoiados em estacas raiz. A solução concentra a fundação em pontos precisos, reduzindo escavações e preservando a topografia. O intercolúnio é de 6,40 m. Os balanços laterais chegam a 1,95 metro, enquanto as extremidades do volume avançam 2,65 m. Para estruturar o corpo elevado, predominam perfis W200.

A montagem levou a decisão técnica até o limite prático. A equipe chegou a estudar uma estrutura parafusada, mas a quantidade de chapas e peças de fixação aumentaria peso e custo. A alternativa adotada foi a soldagem em campo. Como a estrutura receberia pintura no local, a galvanização deixou de ser premissa. O desenho estrutural, a logística e o acabamento passaram a formar uma mesma equação.

O terreno cobrou soluções quase manuais. Para descer os perfis até a área de construção, foram preparados planos inclinados, por onde as peças deslizavam. A montagem utilizou poucas torres de andaime e talha manual para suspensão dos elementos. A imagem é rara em tempos de grandes equipamentos: uma estrutura metálica montada com precisão artesanal, em meio a árvores, declive e espaço restrito.

O volume também se fraciona em duas partes por causa das árvores existentes. Em torno de uma árvore nativa, o projeto cria um pequeno pátio aéreo de acesso às suítes. A implantação oblíqua em relação às curvas de nível garante afastamento das cerejeiras. A arquitetura parece encontrar seu lugar por negociação, ajustando-se ao que já estava vivo antes dela.

“A estrutura metálica e sua lógica de montagem, com canteiro enxuto e trabalho preciso, minimizaram os impactos da construção nas árvores preexistentes”, observa Gregório Rosenbusch. Essa economia de ação aparece no resultado. O pavilhão toca pouco, paira mais, atravessa a área como uma linha habitável.

A altura variável das colunas foi um dos pontos delicados. A implantação oblíqua e o declive acentuado levaram uma das colunas principais a alcançar cerca de 4 metros. Embora as cargas do conjunto sejam baixas, graças ao aço e aos sistemas secos, a esbeltez das peças exigiu atenção no dimensionamento.
A obra prova que pequenas construções também podem concentrar desafios estruturais sofisticados.

A leveza, no Pavilhão Araras, vai além da estrutura. O piso foi resolvido integralmente com Painel Wall, apoiado sobre barroteamento em perfis W200 espaçados a cada 1,20 metro. O escritório Venta Arquitetos estudou com interesse o uso de steel deck, solução capaz de formar um conjunto estrutural mais coeso, mas o custo orientou a escolha final. “O Painel Wall ofereceu desempenho compatível com o orçamento e manteve a coerência da construção seca”, de acordo com o arquiteto.

Nas paredes, o sistema em drywall reduziu carga, acelerou etapas e simplificou a execução em terreno difícil. Nas faces externas, as placas cimentícias receberam tratamento nas juntas e pintura emborrachada preta em toda a superfície. Sobre essa base foram parafusados barrotes de madeira maciça, que receberam ripas de Cumaru fixadas com pistola de pregos.

O desenho das fachadas nasce do entorno. A face frontal, revestida por réguas verticais de Cumaru, prolonga a experiência cromática das cerejeiras floridas, fenômeno breve, concentrado em cerca de duas semanas ao ano. A arquitetura transforma essa aparição passageira em permanência material. A fachada posterior, mergulhada na sombra das copas nativas, adota pintura grafite e participa da penumbra do lugar.

Essa diferença entre frente e fundo carrega uma leitura sensível do sítio. O pavilhão alterna presença e recolhimento. Onde as cerejeiras iluminam o percurso, a madeira aquece a fachada. Onde a sombra domina, a massa escura aproxima a construção da vegetação. O aço permanece como esqueleto disciplinado, sustentando uma arquitetura que prefere ajustar o tom ao ambiente.

A cobertura reforça o caráter técnico da construção. As telhas termoacústicas são de aço com revestimento Galvalume, adequadas a uma região distante de maresia e de agentes corrosivos intensos. O isolamento em PIR atende à exigência de desempenho térmico e acústico. A escolha também favorece montagem rápida, peso reduzido e estanqueidade, pontos essenciais para um pavilhão elevado, estreito e construído em prazo apertado.

Gregório Rosenbusch chama atenção para o papel dos beirais. Eles protegem as paredes externas e evitam soluções mais pesadas de impermeabilização nas juntas das placas cimentícias. O detalhe mostra um trabalho atento à construção real. O desempenho da vedação nasce do desenho da cobertura, da escolha dos materiais e da proteção oferecida pela própria forma.

A durabilidade da estrutura metálica foi tratada com pintura base epóxi aplicada em fábrica e acabamento em esmalte sintético executado na obra. A solução é direta e compatível com o contexto.

O Pavilhão Araras é uma obra pequena apenas na área. Em termos construtivos, reúne uma sequência rara de decisões bem encaixadas: quatro apoios, estacas raiz, perfis I, solda em campo, painel Wall, drywall, placas cimentícias, réguas em cumaru , telhas de aço revestidas e isolamento em PIR. Nada aparece como catálogo de materiais. Cada escolha responde ao terreno, ao prazo, às árvores e ao peso que a construção poderia carregar.

A contribuição do sistema em aço está na soma das operações. Ele reduz apoios, libera o solo, permite montagem em local difícil, conversa com sistemas secos, aceita balanços, diminui cargas e ajuda a construir uma presença discreta entre as copas. Gregório sintetiza o ponto ao afirmar que o essencial foi “combinar todos os fatores”.

Essa combinação dá força ao projeto. O pavilhão pousa sobre a encosta com a precisão de quem conhece o limite do lugar. A estrutura metálica cria a condição para que a casa exista ali, entre cerejeiras e árvores nativas, com a menor pegada possível. Em vez de dominar a topografia, a obra aprende a atravessá-la.

 

FICHA TÉCNICA - PAVILHÃO ARARAS
 
>  Projeto Arquitetônico/Arquiteto Responsável:
Venta Arquitetos/ Gregório Rosenbusch, Laura Rosenbusch e Lorran Kasesky

> Empresa Responsável pelo Projeto e Fabricante da Estrutura em Aço: Industrialtec

> Execução da Obra: Teto Arquitetura

> Área Construída: 120 m²

> Volume de Aço Empregado: 7,8 toneladas

> Conclusão da Obra: 2025

> Local: Petrópolis, RJ

 

Leia na íntegra